"Sentimento do Mundo" - Aqui o poeta nos revela sua limitação e
impotência perante o mundo ("tenho apenas duas mãos/ e o sentimento do
mundo"), mas se declara "cheio de escravos". "Sentimento do
mundo" pode ser entendido também como um poema sobre o próprio fazer
literário ("minhas lembranças escorrem"), onde os poemas
("escravos") surgem como armas ("havia uma guerra/ e era
necessário/ trazer fogo e alimento") resultantes do "sentimento do
mundo" do qual o poeta se conscientiza a partir dessa obra. Drummond
revela neste poema uma visão de mundo extremamente pessimista, com um amanhecer
"mais noite que a noite".
"Confidência do
Itabirano" -
A alienação e o sentimento de dispersão que aparecem no primeiro poema do livro
("Sinto-me disperso,/anterior a fronteiras") são vistas como
consequências do isolamento geográfico e social de um eu marcado pela
decadência ("Tive ouro, tive gado, tive fazendas./Hoje sou funcionário
público."). "Confidência do Itabirano" se fundamenta em uma
série de antíteses ("vontade de amar" versus "hábito de
sofrer", etc.), em um impasse poético entre o coletivo ("ferro nas
calçadas") e o individual ("ferro nas almas"). A dor do poeta
não é apenas causada pela saudade da terra natal, mas também pelo destino do
país, que se modernizava e esquecia cidades como Itabira, que é "apenas
uma fotografia na parede".
"Poema da
Necessidade" -
as inquietações e preocupações impostas pelo ritmo frenético da vida moderna
são representados um atrás do outro por meio de repetições (anáfora). As
necessidades que nos são impostas (ler isso, acreditar naquilo, fazer aquilo
outro) contrastam com as necessidades mais básicas e verdadeiras do homem:
"É preciso viver com os homens/é preciso não assassiná-los". A necessidade
de agir de acordo com os padrões e reprimir o ego esbarra no desejo íntimo.
"O Operário no Mar" - poema em prosa cujas imagens rompem
a barreira do real fundamentando-se em bases surrealistas. O operário, figura
idealizada do movimento socialista, aparece como um Cristo ("Agora está
caminhando no mar"), mas seu corpo não é santo ("aparentemente
banal") e não há nenhuma coisa que o ajude a passar pelas turbulências
("não vejo rodas nem hélices no seu corpo") do cotidiano. O poeta
deixa claro que há uma diferença entre o trabalho braçal do operário e o
trabalho (talvez cômodo) do fazer poético ao dizer: "Daqui a um minuto
será noite e estaremos irremediavelmente separados pelas circunstâncias
atmosféricas, eu em terra firme, ele no meio do mar". Mas há um sorriso
que liga os dois e a esperança de que no futuro o eu-poético consiga
compreender o operário.
"Canção do Berço" - neste poema o poeta transmite
através de uma irônica amargura a mensagem de que o futuro já está marcado
desde o berço: o amor, a carne, a vida, os beijos ou mesmo o mundo não têm
importância num contexto de lucro imediato que a sociedade de consumo impõe. Ou
seja, as relações humanas não possuem significado dentro de um estilo de vida
baseado nos valores passageiros da sociedade moderna.
"Bolero de Ravel" - este poema tem como mote
"Bolero", a obra mais famosa do compositor e pianista francês Maurice
Ravel (1875-1937). Ravel compôs essa música como um simples exercício de
orquestração, sendo construída em um ritmo invariável e numa melodia uniforme e
repetitiva. A única sensação de mudança que temos se dá por uma mudança na
intensidade dos instrumentos em determinadas partes da música. Essas
características da obra aparecem no poema de Drummond através de referências
como "espiral de desejo", "infinita, infinitamente" e
"círculo ardente". O poema ganha significado através do contraste
entre uma "alma cativa e obcecada", e um "aéreo objeto".
Esta alma, que por não tocar jamais seu objeto de desejo (por isso
"aéreo"), está presa num círculo infinito de "desejo e
melancolia". Assim, "nossa vida" está presa nesse "círculo
ardente" do desejo, numa dança infinita, onde os tambores servem para
abafar a verdade de que o Imperador (o "desejo", ou aquele que impõe
o objeto de desejo) na realidade está morto.
"La Possession du
Monde" -
Georges Duhamel foi um escritor francês que durante a década de 1930 e 1940
viajou pelo mundo divulgando a língua e a cultura francesa, além da ideia de
construir uma civilização mais baseada no "coração humano" do que no
avanço tecnológico. Tendo isso em mente, podemos pensar que este poema trata de
questões como as qualidades da ética num mundo denegrido por um avanço
técnico-econômico megalomaníaco e as relações secretas que ligam o desejo, o
gozo (obtenção do objeto de desejo) e o "sentimento do mundo", uma
vez que a personagem do poema desdenha da "erudita dissertação
científica" ao preferir pedir a fruta amarela engraçada ("ce cocasse
fruit jaune").
"Mãos Dadas" - este, que é um dos mais emblemáticos
poemas de Drummond, tem como eixo central o fazer poético e sua relação com o
mundo, seu compromisso com o outro. O poeta deixa claro seu novo sentimento e a
direção que sua poesia irá tomar ao declarar que não será "o poeta de um
mundo caduco", ou seja, alienado da realidade presente ("O presente é
a minha matéria"). Embora seus companheiros estejam tristes e calados,
nutrem esperanças de dias melhores e o poeta se solidariza com eles.
"Dentaduras Duplas" - tido como um dos poemas do indivíduo
mais extraordinários feitos por Drummond, "Dentaduras Duplas" trata
de um tema que percorre toda a história da poesia: o envelhecer. Aqui, o
"eu" se questiona e questiona a vida de modo mais universal, não
isolado e individualista como nos livros anteriores. O poema é quase todo
composto nem versos pentassílabos, em uma construção rítmica onde uma palavra
puxa a outra. Seu final resume em uma metáfora irônica o apetite do tempo:
"mastigando lestas/e indiferentes/a carne da vida!".
"Elegia 1938" - neste poema Drummond parece utilizar
a segunda pessoa do singular, "tu", como se falasse consigo mesmo.
Este desdobramento do eu-lírico em uma outra pessoa aparece diversas vezes em
Sentimento do Mundo, como se o poeta precisasse de uma referência externa mais
séria (embora muitas vezes irônica) para conseguir analisar a realidade a sua
volta, que parece tão errada.
"Mundo Grande" - as ruas, espaço público onde os
problemas e conflitos sociais e políticos se mostram de modo mais evidente,
aparecem claramente em contraposição à alienação de uma classe privilegiada que
se encontra protegia dentro de espaços fechados: "Fecha os olhos e
esquece. Escuta a água nos vidros,/tão calma. Não anuncia nada". Ao
utilizar nessa passagem a terceira pessoa ("fecha", "escuta"),
o eu-lírico está se desdobrando numa outra pessoa, encenando assim um conflito
de sentimentos e posições morais.
http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/portugues/sentimento-mundo-analise-obra-carlos-drummond-andrade-697605.shtml



















